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Centrão e bolsonaristas redescobrem sua vocação: atrapalhar o governo e bancar especialistas de última hora

Derrite larga a SSP-SP para estrear na Câmara como protagonista… de um projeto que ele mesmo desfigurou
Gustavo Henrique o Gustavo pela Cidade

A nova união estável entre centrão e bolsonarismo ganhou mais um capítulo digno de novela nesta terça-feira (18). Após alguns dias de “crise no relacionamento”, as duas alas voltaram a se abraçar calorosamente — claro, em torno de sua atividade favorita: trabalhar contra o governo federal. E desta vez o palco foi o PL Antifacção, cuja autoria original era do Executivo, mas cujo destino acabou nas mãos de um relator bastante peculiar.

Sim, ele mesmo: Guilherme Derrite, que em janeiro de 2023 amanheceu como secretário de Segurança Pública de São Paulo e agora, pouco mais de dois anos depois, resolveu que era hora de brincar de legislador. Experiência parlamentar? Nenhuma. Mas quem precisa disso quando se tem vontade de protagonismo, um partido acolhedor e um centrão sedento por confusão?

O resultado não poderia ser outro: o governo foi atropelado por 370 votos a 110, com partidos que ocupam ministérios entregando 60% dos votos… contra o próprio governo. Uma coesão admirável — desde que a intenção seja enfraquecer a agenda que deveriam defender.

Tudo isso embalado pela súbita convicção do centrão e dos bolsonaristas de que são, agora, campeões da segurança pública. Depois de meses sendo alvejados pelas redes sociais por causa de operações policiais e estatísticas incômodas, descobriram no tema uma vitamina política perfeita para 2026. Nada como vestir a fantasia de “linha dura” quando convém, mesmo que o figurino não sirva muito bem.

A condução de Derrite foi uma aula prática de como transformar um projeto prioritário para o Executivo em um verdadeiro vaivém de relatórios, cada um mais criticado que o anterior. Governistas, oposição e até o próprio centrão classificaram o processo como… bem, “criativo”, para dizer o mínimo. No Planalto, preferiram o termo mais honesto: lambança legislativa.

Enquanto isso, o presidente da Câmara, Hugo Motta, cada vez mais confortável no papel de bússola desorientada, foi acusado de tudo: açodamento, falta de diálogo, sinalizações dúbias… Talvez o parlamentar esteja apenas aperfeiçoando a arte ancestral do centrão: falar com os dois lados ao mesmo tempo e não convencer nenhum.

No plenário, a oposição fez seu habitual show pirotécnico. O deputado Zucco, com a sobriedade característica, anunciou que era “o dia da coragem” e que a esquerda era “negacionista da segurança pública” — sempre bom quando quem trata a própria ciência como ficção decide acusar alguém de negar alguma coisa.

Do lado governista, Maria do Rosário lembrou o óbvio: que o relatório de Derrite favorece o crime organizado, algo que talvez explicasse a pressa e a disposição tão pouco criteriosa de aprová-lo.

O discurso final de Motta foi uma pérola: disse que o Parlamento não está aqui para “carimbar” projetos do Executivo. Verdade. Mas também não está, teoricamente, para desmontar propostas às pressas só para dar palco a um relator recém-saído de uma secretaria estadual e cheio de vontade de provar serviço.

Agora, com o estrago consolidado, resta ao governo esperar que o Senado limpe a bagunça e devolva ao texto alguma lógica. Enquanto isso, o centrão e os bolsonaristas comemoram mais uma vitória — não do país, não da segurança pública, mas deles mesmos.

E assim segue a Câmara: salvando o Brasil de projetos do próprio Brasil.

Fonte: Revista40graus, colaboradores e Câmara dos Deputados

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