Perícia questiona versão sobre mensagens e reforça importância da análise técnica
Especialistas dizem que organização de arquivos não identifica automaticamente destinatáriosA análise de técnicos e peritos criminais lançou novas dúvidas sobre a explicação apresentada pelo gabinete do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, a respeito de mensagens encontradas no celular do banqueiro Daniel Vorcaro no dia de sua prisão.
Em nota divulgada nesta sexta feira, o gabinete do ministro afirmou que os prints localizados no aparelho do empresário estariam vinculados a pastas associadas a outros contatos da agenda de Vorcaro e, portanto, não teriam sido direcionados ao magistrado. As mensagens teriam sido elaboradas no bloco de notas, transformadas em capturas de tela e enviadas no formato de visualização única, que desaparece após ser aberta.
De acordo com o comunicado, o fato de as imagens estarem armazenadas em pastas associadas a outros contatos indicaria que não haveria vínculo com o ministro. A avaliação, no entanto, não foi exatamente recebida como conclusão definitiva no campo técnico.
Especialistas ouvidos pela reportagem explicam que a forma como os arquivos são organizados após a extração de dados de um celular não permite identificar automaticamente quem seria o destinatário de determinada mensagem. Em investigações digitais, a aparência das pastas costuma enganar quem imagina que tecnologia funciona como uma gaveta organizada por nomes.
Nos metadados do WhatsApp, por exemplo, os arquivos costumam ser separados em diferentes categorias, como mídias enviadas, fotos de perfil e contatos. Durante a extração forense de dados, softwares especializados podem reorganizar essas informações em um único diretório, seguindo critérios técnicos como o índice MD5, uma codificação que cria sequências aleatórias para identificar arquivos.
Esse procedimento não segue lógica temática ou de relacionamento entre contatos. Em outras palavras, dois arquivos podem aparecer lado a lado simplesmente por coincidência técnica, não por relação direta entre as pessoas envolvidas.
Os especialistas explicam que a identificação real do destinatário costuma depender das informações armazenadas nos bancos de dados do próprio WhatsApp. É ali que ficam registrados elementos como o chat específico, o identificador do contato e o horário de envio da mensagem.
Foi justamente a coincidência temporal entre o registro das mensagens e o momento em que as anotações foram capturadas no bloco de notas que chamou atenção dos investigadores. Reportagem da jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo, indicou que Vorcaro teria trocado nove mensagens com Alexandre de Moraes por WhatsApp no dia 17 de novembro, entre 7h19 e 20h48. A existência da troca de mensagens naquele dia foi confirmada posteriormente.
Ainda assim, pesquisadores da área de direito digital observam que estabelecer um nexo jurídico definitivo entre as capturas de tela e as mensagens enviadas não é tarefa simples. A coincidência de horários pode representar apenas um indício circunstancial, que precisa ser complementado por outros elementos de prova.
No universo das investigações digitais, portanto, o caminho costuma ser menos cinematográfico e mais técnico. Arquivos são analisados, metadados são examinados e cada detalhe precisa respeitar a cadeia de custódia das provas. No fim das contas, é justamente esse cuidado que permite que a verdade seja apurada dentro do devido processo legal, com espaço para dúvidas, contestação e, sobretudo, esclarecimento dos fatos.
Fonte: Revista40graus, FS, mídias, redes sociais e colaboradores
